Chegaste em 2000, meses antes de estrear o Super Pai. Porque é que me lembrei do Super Pai? Tu sabes. Eles tinham uma cadela parecida contigo e com o mesmo nome, Nina. A diferença é que tu eras rafeira e ela devia ser de alguma raça qualquer que eu não consigo identificar. Essa sempre foi a minha dificuldade com os cães.
Senhora do teu nariz, nunca foste muito de afetos. Chegavas, sentavas-te em cima de uma almofada e ficavas lá até te chamarem para comer. Passavas despercebida e só dávamos por tua conta quando queríamos ocupar o sofá.
Também foste uma cadela de princípios. Não eras uma Maria vai com todos. Preocupada com o corpo, só deste à luz uma vez, o Mourinho em 2002, e a partir daí fechaste a loja. Nem o teu marido podia tocar-te.
Mas tanta preocupação pelo corpo fez com que te desleixasses anos depois. Muitas vezes cheiravas mal e até gases emanavas. Desculpa, mas tinha de dizer. É parte de ti. Talvez fosse uma forma de sentirmos a tua presença, mas a verdade é que nem puxando por ti tu eras interessante. Eram frequentes as vezes que todos nós te chamávamos fedorenta, ratona e malcheirosa. Por mais banhos que te déssemos, passava um dia e já estavas fedorenta.
Aí no céu dos cães, nunca poderás queixar-te de maus-tratos, porque sempre foste bem tratada. Não nos trataste foi bem. Quer dizer, nunca nos pediste atenção. Mas também nunca exigimos isso de ti.
Aí no céu dos cães, nunca poderás queixar-te de maus-tratos, porque sempre foste bem tratada. Não nos trataste foi bem. Quer dizer, nunca nos pediste atenção. Mas também nunca exigimos isso de ti.
Até recentemente, quando começaram a dar os sinais de velhice. Até hoje, que sucumbiste a essa agonia que a todos nós afligia. A tua presença notava-se. Pelos piores motivos.

Nina, quero que saibas que mesmo passando despercebida nunca serás esquecida. Estamos tristes, mas com a certeza de que estarás num sítio melhor. Não sei se o céu dos cães fica perto do céu dos humanos, mas um dia faço-te uma visita. Espero é que compreendas que essa visita pode demorar muitos, mas muitos e longos anos. Sei que ficarás à espera a dormir, pacientemente, em cima de uma almofada, como tu gostavas quando cá andavas.
(Nina, out/nov00 - 31jan12)




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